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Vila do Conde à Flor da Pele

João Amorim Costa

João Amorim Costa

Arquiteto

Há um momento do ano em que Vila do Conde muda de ritmo. Não é apenas o calendário que anuncia o verão. São os lugares desta Terras que mudam com ele. A luz demora mais tempo a despedir-se, o cheiro do mar invade as ruas, as esplanadas voltam a encher-se de vida, as praias recebem famílias inteiras e os emigrantes regressam a casa. Há reencontros, abraços, gargalhadas e aquela sensação difícil de explicar de que, por estes dias, tudo faz mais sentido.

É impossível viver este tempo sem que a memória nos leve pela mão. Cada um de nós guarda um verão de infância. Um balde cheio de areia, um mergulho que parecia o primeiro, uma bola perdida na praia, o som das gaivotas misturado com o das ondas, as corridas pelas ruas depois do jantar e as noites que pareciam não acabar. São memórias simples, mas são elas que nos moldam. São elas que nos ensinam que há lugares que nunca deixamos verdadeiramente, mesmo quando a vida nos possa levar para longe.
Talvez seja por isso que Vila do Conde não se explica. Sente-se. Vive-se à flor da pele.

As Festas de São João voltaram a demonstrá-lo. Este ano, a cidade viveu dias absolutamente extraordinários. As ruas encheram-se ainda mais, num ambiente de alegria, convívio e orgulho coletivo. Foi, muito provavelmente, o maior São João de sempre. E esse sucesso não nasceu por acaso. Nasceu da capacidade de programar, de respeitar aquilo que sempre fomos, sem receio de fazer diferente quando isso significa fazer melhor. As tradições não sobrevivem por ficarem paradas no tempo; sobrevivem porque cada geração lhes acrescenta um novo capítulo, preservando a sua alma.

Quando isso acontece, todos ganham. Ganha quem vive cá, ganha quem nos visita pela primeira vez e leva consigo a vontade de regressar. Ganham os restaurantes, os cafés, o comércio tradicional, os hotéis, os produtores locais, as associações e todos aqueles que fazem da hospitalidade uma forma de estar. Uma Terra viva gera riqueza, cria oportunidades, fortalece a economia local e, acima de tudo, reforça o orgulho de quem nela vive.

Mas está nossa Terra não se constrói apenas nos dias de festa. Constrói-se todos os dias, muitas vezes longe dos holofotes. Na recuperação do muro da margem direita do rio Ave, protegendo uma frente ribeirinha que faz parte da nossa identidade. Na requalificação do Parque de Jogos, investindo no desporto, na juventude e na qualidade de vida. Na transformação do antigo Convento do Carmo, que acolherá o Centro de Estudos Judiciários, mostrando que é possível preservar o património, enquanto se lhe dá uma nova utilidade e uma dimensão nacional. São investimentos que melhoram hoje, mas que, sobretudo, preparam o amanhã. E se isso não é uma boa gestão autárquica, então qual será?
Talvez seja esse o verdadeiro segredo de Vila do Conde: saber crescer sem deixar de ser ela própria.

Honrar o passado sem ficar preso a ele. Olhar em frente sem esquecer quem somos. É esse equilíbrio que faz com que cada verão, continue a ter o mesmo sabor de sempre, mesmo quando esta nossa Terra cresce como nunca, se melhora e se transforma.

Porque há cidades e freguesias bonitas. Há cidades e freguesias modernas. Há Concelhos bem geridos. Mas poucas Terras conseguem tocar-nos como esta. Talvez seja o mar. Talvez seja o rio. Talvez sejam as tradições e o património. Talvez sejam as pessoas. Ou talvez seja apenas porque há lugares onde vivemos e há outros que vivem em nós. Vila do Conde é um deles. À flor da pele.

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