
Vila do Conde assinalou, no passado dia 1 de agosto, o centenário do nascimento de José Ferreira Vila Cova com uma cerimónia de homenagem que reuniu familiares, amigos, representantes de instituições e membros da comunidade.
O momento mais simbólico da evocação foi o descerramento da placa toponímica da nova Praça José Ferreira Vila Cova, localizada junto ao Monumento ao Pescador, nas Caxinas. A atribuição do nome daquele espaço público constitui uma forma de perpetuar a memória de uma personalidade profundamente ligada às Caxinas e à Poça da Barca, cujo percurso cívico, social e humano deixou uma marca significativa na história da comunidade.
Durante a cerimónia, foi destacado o contributo de José Ferreira Vila Cova para o desenvolvimento e coesão da comunidade piscatória, bem como a sua dedicação às causas locais e ao serviço da população. Familiares e representantes institucionais sublinharam o exemplo de cidadania e de proximidade que continua a inspirar aqueles que com ele conviveram.
Quem foi José Ferreira Vila Cova?
Natural das Caxinas, onde nasceu a 1 de agosto de 1926, José Ferreira Vila Cova dedicou grande parte da sua vida à preservação da memória e da identidade da comunidade piscatória. Apaixonado pela história da sua terra, recolheu durante décadas testemunhos, fotografias e documentos que deram origem ao livro “Caxinas – A Minha Terra e a Minha Gente”, publicado pela Câmara Municipal de Vila do Conde.
Na obra, retrata a evolução das Caxinas e da Poça da Barca ao longo do século XX, recordando a origem da comunidade, a dureza da vida dos pescadores, a pesca do bacalhau e a pesca costeira, as antigas barracas de madeira, os costumes, as tradições, a religiosidade e o espírito de solidariedade que sempre caracterizou a população. O livro reúne ainda inúmeras histórias de vida e memórias contadas pelos próprios pescadores, constituindo um dos mais importantes testemunhos sobre a história social das Caxinas.
O livro permite perceber também o papel da família Vila Cova no desenvolvimento da localidade. O seu pai, António Ferreira Vila Cova, começou por explorar uma pequena mercearia que se tornou uma referência para os pescadores. Durante os períodos de maior dificuldade fiava alimentos às famílias,
emprestava dinheiro para a compra de barcos e redes e apoiava pescadores em situação de necessidade.
Em 1927, António Ferreira Vila Cova doou ainda o terreno onde seria construída a Capela do Senhor dos Navegantes, que mais tarde deu origem à conhecida “Igreja do Barco”. Da família também de destacar igualmente o trabalho do seu irmão, responsável pela construção de dezenas de habitações destinadas aos pescadores, vendidas em prestações sem juros, e pela abertura de novas ruas nas Caxinas. A família esteve também ligada à instituição de solidariedade social Associação de Proteção à Terceira Idade “A. F. Vila Cova” uma IPSS criada em 1983, sediada na Avenida Infante D. Henrique, nas Caxinas que desenvolve respostas de Centro de Dia, Serviço de Apoio Domiciliário, Creche, Jardim de Infância e ATL.
José Ferreira Vila Cova era um homem profundamente ligado às Caxinas. No próprio livro apresenta-se como um “orgulhoso vilacondense das Caxinas”, preocupado em preservar modos de vida que estavam a desaparecer. Mais do que escrever uma história cronológica, procurou fixar a memória coletiva da comunidade através das palavras dos próprios pescadores, das suas expressões, tradições, crenças e formas de viver.
A atribuição do seu nome à praça junto ao Monumento ao Pescador representa, assim, o reconhecimento de uma vida dedicada à valorização da memória coletiva e da identidade caxineira.