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22 de Setembro, 2026 23:08

E voltamos à escola. Porque o futuro não espera por nós.

João Amorim Costa

João Amorim Costa

Arquiteto

Todos os anos digo isto. Setembro é o verdadeiro mês dos recomeços. Talvez até mais do que janeiro. Janeiro muda-nos o ano, setembro muda-nos os dias. Acabam as férias, regressam os horários, os nossos lugares de sempre, as manhãs começam a arrefecer e há um cheiro qualquer no ar que nos diz, mesmo antes de olharmos para o calendário, que o verão está a despedir-se. E depois há a escola. Os livros novos, os cadernos ainda por escrever, as mochilas grandes às costas dos mais pequenos e os pais que disfarçam pior do que os filhos a ansiedade do primeiro dia. Tudo recomeça.

Tenho de confessar que sinto este regresso de uma forma especial. Talvez porque passei quase dois terços da minha vida na escola: primeiro como aluno e, muitos anos depois, do outro lado da sala, como professor na Universidade onde me formei. Talvez por isso setembro me traga sempre essa mistura de saudade e expectativa, de algo que termina e de outro tanto que começa. É essa, talvez, a mais bonita lição da escola: há sempre a possibilidade de recomeçar.

E os territórios também precisam de saber recomeçar. Parar, olhar para aquilo que fizeram e, principalmente, para aquilo que deixaram por fazer. As escolas envelhecem. Vila do Conde deixou passar demasiado tempo. Nos mandatos anteriores fez-se pouco. E oito anos são muito tempo. São quase uma infância inteira. Uma criança entra pela mão dos pais e, oito anos depois, já cresceu, mudou, é quase outra. É uma vida a acontecer enquanto se espera.

Depois vieram estes últimos anos. Menos tempo. Muito mais obra. Macieira da Maia, Modivas, Mindelo, Guilhabreu, Caxinas, Retorta, Bagunte, Rio Mau, Vila Chã. Dizê-las assim, umas atrás das outras, parece uma viagem por Vila do Conde. E é. Umas concluídas, outras em obra, outras adjudicadas ou preparadas para começar. Máquinas, andaimes, pó, barulho. Finalmente. Começa a perceber-se uma verdadeira política para o parque escolar do concelho. Outra escala. Outro ritmo. Outra ambição. Progresso. Um concelho não nasce de novo a cada eleição, nem se apaga o que vinha de trás. Mas há uma diferença entre pensar e concretizar, entre querer fazer e conseguir fazer, entre o tempo que simplesmente passa e aquilo que conseguimos fazer com ele.

E há uma parte desta história que não tem o cheiro dos livros novos nem o barulho das crianças no recreio. Tem candidaturas, projetos, prazos, mapas financeiros e siglas: PRR, Portugal 2030, fundos comunitários. Parece a parte menos interessante, mas é uma das mais importantes. Porque para fazer é preciso dinheiro e governar não é apenas saber gastá-lo; é saber encontrá-lo. Ter os projetos preparados, conhecer os programas, cumprir prazos, insistir, não deixar passar oportunidades. Vila do Conde alcançou nestes últimos anos uma capacidade de captação de financiamento externo sem precedentes na sua história. São dezenas de milhões de euros. Dinheiro que vem de fora para ficar cá dentro. Para uma escola inteira, uma sala, uma cobertura, uma janela. Dinheiro que permite fazer mais com menos do dinheiro de todos nós. Administrar é gerir aquilo que temos. Governar é conseguir multiplicá-lo.

E isto é sobretudo visão. Aquela que Vítor Costa prometeu e que, juntamente com o seu Executivo, concretizou nestes cinco anos. Perceber que há momentos que não se repetem e que os fundos europeus são também uma corrida contra o tempo: ou temos projetos, candidaturas e capacidade de execução, ou o dinheiro segue para outro lugar. Não espera por nós. Tal como uma criança não espera que decidamos finalmente recuperar a escola onde estuda. Cresce. Passa de ano. Vai embora. Há uma crueldade particular no tempo perdido quando falamos de crianças: aquilo que não lhes damos hoje já não podemos devolver-lhes amanhã. Podemos recuperar uma escola dez anos depois, substituir o telhado, pintar as paredes, mudar as janelas, refazer o recreio. O que não podemos é devolver aquela escola à criança que entretanto cresceu e partiu. O tempo de uma Câmara mede-se em mandatos. O tempo de uma criança mede-se em crescimento. E esses dois relógios não esperam um pelo outro.

A diferença sente-se e vê-se hoje em Vila do Conde. Até se ouve. No barulho das máquinas, no pó, nos andaimes. Até que um dia tudo desaparece, faz-se silêncio e fica uma escola. Uma escola onde alguém aprenderá a ler, fará amigos, viverá histórias e crescerá. Um dia já não se lembrará da obra, do seu custo ou das siglas que a financiaram. Lembrar-se-á apenas daquilo que viveu lá dentro e da terra onde cresceu.

Setembro chegou outra vez. As portas abrem-se, os recreios voltam a encher-se e milhares de crianças começam mais um ano sem saber ainda aquilo que ele lhes vai trazer. Algumas entrarão pela primeira vez. Outras já conhecem cada corredor. Todas crescerão um pouco até ao próximo verão. Talvez seja essa a grande lição da escola e a razão mais simples para não desperdiçarmos tempo: o futuro não espera por nós. Chega todos os anos, de mochila às costas, pela porta de uma sala de aula.

É tempo de recomeçar. Voltamos à escola. Voltamos às nossas vidas.

E nós regressamos, por aqui, a acompanhar.

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