
Inês Faria, natural de Gião, tem vindo a destacar-se no panorama nacional e internacional como ginasta.
A atleta é uma das primeiras acrobatas portuguesas a entrar no Cirque du Solei e, entre muitas conquistas, alcançou a medalha de bronze nos Jogos Mundiais 2025, na China.
Recentemente, foi homenageada nos Paços do Concelho, pelo Presidente da Câmara, num ato de reconhecimento pelo seu trajeto na modalidade e como embaixadora do concelho pelo mundo.
O JVC falou com Inês Faria para saber mais sobre a vida da atleta e ambições futuras.
Com que idade começaste a praticar ginástica acrobática? Como é que tudo começou?
Comecei com 11 anos. Antes disso experimentei algumas modalidades, como patinagem, karaté e natação, mas foi na ginástica acrobática que me apaixonei verdadeiramente. Mal fiz a primeira aula, pensei logo: “É isto!”. Senti que se adaptava à minha fisionomia e também à minha forma de estar. A ginástica deu-me confiança e despoletou algo dentro de mim que eu ainda não conhecia.
Alguma vez imaginaste alcançar tantas medalhas e títulos?
Sinceramente, não. Quando comecei, nunca pensei em medalhas ou títulos. Comecei porque gostava, porque me fazia feliz e porque sentia que era ali o meu lugar.
Com o tempo, as conquistas foram acontecendo, mas sempre como consequência do trabalho diário e do esforço de uma equipa inteira. Nunca vejo as medalhas como algo individual por trás de cada uma estão os meus treinadores, o clube, a minha parceira e a minha família.
Mais do que imaginar ganhar títulos, sempre imaginei dar o meu melhor e evoluir. Se isso trouxe medalhas, fico naturalmente muito grata, mas o que mais me orgulha é o caminho feito e a pessoa em que me tornei ao longo dele.
Como é o teu dia a dia enquanto atleta de alta competição?
O meu dia a dia é exigente, mas é uma exigência que eu própria escolhi. A alta competição obriga a organização, disciplina e consistência. Os treinos são intensos, há preparação física, trabalho técnico e também muita preparação mental.
Tudo é planeado ao detalhe, desde a alimentação às horas de descanso, porque percebemos que pequenas escolhas fazem uma grande diferença no rendimento. Há renúncias, claro, sobretudo a nível social, mas fazem parte do compromisso.
Nem todos os dias são motivadores. Há momentos de cansaço, frustração e dúvida. Mas aprendi que a diferença está em como reagimos nesses dias. A alta competição ensinou-me resiliência, responsabilidade e a capacidade de continuar mesmo quando não é fácil.
No fundo, é uma vida desafiante, mas muito gratificante, porque cada conquista sabe ao dobro quando sabemos o que foi preciso para lá chegar.
De todas as tuas conquistas, qual é a que destacas e porquê?
É difícil escolher apenas uma, porque cada conquista tem uma história e um significado diferente. Mas talvez destaque aquelas que surgiram depois de momentos mais difíceis.
A Taça do Mundo na Maia marcou-me muito, por ter sido “em casa”, com o apoio do público, e por ter vindo depois de uma lesão grave que quase me fez parar. Ouvir o hino de Portugal naquele momento foi algo que nunca vou esquecer.
E claro, os Jogos Mundiais, por tudo o que representaram. Foi uma época exigente, sabíamos que estávamos numa fase final de ciclo, e conseguir terminar com uma medalha foi muito especial. Não apenas pelo resultado, mas por tudo o que superámos para lá chegar.
No fundo, as conquistas que mais me marcam não são apenas as medalhas, mas aquilo que elas simbolizam: resiliência, superação e trabalho de equipa.

Ganhar a medalha de bronze nos Jogos Mundiais 2025, na China, ao lado de Beatriz Carneiro, em representação da Seleção Nacional, naturalmente é um marco na tua carreira. O que representa para ti esta conquista?
Ganhar a medalha de bronze nos Jogos Mundiais 2025 foi, sem dúvida, um dos momentos mais marcantes da minha carreira.
Representar Portugal ao lado da Beatriz Carneiro e subir ao pódio num dos maiores eventos desportivos do mundo é algo difícil de colocar em palavras. Foi um misto de orgulho, gratidão e realização. Naquele momento, passaram-me pela cabeça todos os anos de trabalho, as lesões, as renúncias, os dias difíceis, e perceber que tudo tinha valido a pena.
Mais do que a medalha em si, o que essa conquista representa é a honra de ter defendido o nosso país e de ter contribuído para elevar a ginástica acrobática portuguesa. É um sentimento que guardarei para sempre.
És uma das primeiras acrobatas portuguesas a entrar no Cirque du Soleil, por convite direto. Como descreves este feito e como é fazer parte desta companhia?
Ser convidada diretamente pelo Cirque du Soleil foi algo que me apanhou completamente de surpresa. Ainda estava a viver as emoções dos Jogos Mundiais 2025 quando surgiu esta oportunidade, e confesso que, no início, parecia quase irreal.
Sinto este feito com muita gratidão e humildade. Sei que há muitos artistas talentosos a trabalhar anos para uma oportunidade destas, por isso encaro-a como um privilégio enorme e também como uma grande responsabilidade.
Fazer parte do Cirque é entrar num nível de profissionalismo e exigência muito elevado. Tudo é pensado ao detalhe, há um acompanhamento constante e um enorme respeito pelo artista. Ao mesmo tempo, é um ambiente muito inspirador, estamos rodeados de pessoas extraordinárias, cada uma referência na sua área. Aprendo todos os dias.
Mais do que um “feito”, vejo esta etapa como uma continuação do caminho. Uma nova forma de crescer, de evoluir e de levar comigo tudo aquilo que a ginástica me ensinou.
Qual é o maior desafio que encontras na prática desta modalidade?
O desafio é diário. Manter o foco, conciliar treinos com a escola, família e competições exige muita organização e maturidade. A parte mental é tão importante quanto a física.
Quais são os teus objetivos para o futuro?
Para já, quero continuar a viver este sonho no Cirque du Soleil. A faculdade é também um objetivo, mas está temporariamente em pausa.
No futuro, quando regressar a Portugal, ser treinadora de ginástica acrobática será certamente um passo natural. Gostava também de ser embaixadora da modalidade e ajudar outros jovens atletas a acreditarem no poder do desporto e em si próprios.

Há pouco tempo, foste homenageada nos Paços do Concelho de Vila do Conde, o que representa para ti este reconhecimento da tua comunidade?
Ser homenageada nos Paços do Concelho de Vila do Conde foi algo que me emocionou profundamente. É muito gratificante sentir o reconhecimento da nossa comunidade e perceber que valorizam o nosso percurso.
Dá-nos uma energia extra e faz-nos sentir que todos os dias difíceis, que são muitos na vida de um atleta, valeram a pena.
Sou muito feliz por representar a minha cidade e farei sempre o possível para continuar a elevar o nome de Vila do Conde e de Portugal.