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À Beira do Abismo… e do que nos salva

João Amorim Costa

João Amorim Costa

Arquiteto

Vivemos, de facto, um tempo estranho. Um tempo em que a sensação de estarmos à beira do abismo deixou de ser apenas uma metáfora dramática para se tornar quase um estado de espírito coletivo. Ligamos a televisão e, por momentos, já não sabemos se estamos a assistir à realidade ou a uma qualquer ficção, daquelas que, há poucos anos, consideraríamos exageradas.

Multiplicam-se os comentadores, as análises, as certezas ditas com convicção. Mas a verdade, essa, é que ninguém tem certezas de nada e muito poucos percebem o que está a acontecer. Porque talvez o mais inquietante não seja apenas o que acontece no mundo, mas a perceção de que muitos dos que decidem… não compreendem verdadeiramente o que estão a fazer. Ou pior: alguns compreendem e, ainda assim, avançam.

Nunca tivemos tanto conhecimento disponível. Nunca tivemos tanta informação. Tanta tecnologia. E, paradoxalmente, nunca pareceu haver tão pouca lucidez. Entre a insanidade, a incompetência e ignorância, constrói-se um cenário que não pode deixar ninguém indiferente. Não é dramatismo, é um aviso. Um daqueles que a História nos ensinou a não ignorar.

Dizem que é muitas vezes à beira do abismo que o ser humano se reencontra, que se reorganiza, que se eleva e se reinventa. Por isso a esperança não é ingénua, é necessária e é muitas vezes o último bastião da razão. Talvez também por isso, desde a pandemia, aprendemos, ou fomos obrigados a aprender, a viver em estado de adaptação constante. Tornámo-nos mais resilientes. Mais atentos. Mais capazes de lidar com o inesperado. E isso, goste-se ou não, parece ter nos mudado…

Mas se o mundo nos inquieta, por cá há sinais que não podemos ignorar. Sinais de construção, de investimento, de futuro.

A conclusão da primeira fase da requalificação da Escola da Ribeirinha é mais do que uma obra. É um compromisso com as próximas gerações. Mais um investimento que ultrapassa os números, ainda que mais de seis milhões de euros não sejam indiferentes e que se traduz em melhores condições, mais inclusão, mais dignidade para quem aprende e ensina. Mais virão…

Em Mindelo, o novo pavilhão da Escola D. Pedro IV aproxima-se da sua inauguração. Um equipamento que reforça não apenas a prática desportiva, mas também a coesão social, a igualdade de oportunidades, o direito ao crescimento equilibrado dos nossos jovens.

E no antigo Convento do Carmo, ganha forma um projeto com uma dimensão que ultrapassa o concelho. A instalação do Centro de Estudos Judiciários não é apenas uma reabilitação física. É uma afirmação estratégica. Uma aposta na qualificação, na justiça, na centralidade de Vila do Conde no panorama nacional. São sinais. E os sinais importam.

Num mundo que parece, por vezes, perdido em si próprio, há territórios como o nosso que escolhem construir. Há comunidades que escolhem avançar. Há decisões e líderes que, felizmente, apontam no sentido certo.

Talvez seja isso que nos possa tranquilizar, não o suficiente para baixar a guarda, mas o suficiente para manter a esperança. Porque, no fim, entre o abismo e o futuro, há sempre uma escolha. Por cá, não temos dúvidas, continuamos a escolher construir e sempre acompanhar.

Como nota final, deixo, em meu nome e em nome do Jornal de Vila do Conde, sentidas condolências ao Sr. Presidente Vítor Costa e à família enlutada pelo falecimento de sua mãe.

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