A realidade dos nossos dias atinge dimensões, desafios e receios que só mesmo os melhores filmes de ficção poderiam adivinhar. Ao contrário do costume sinto-me invadido por uma negatividade, que a lógica dos factos não consegue ignorar. Sei que é uma contradição por ser diretor deste Jornal, mas dou por mim com vontade de não ver, não ouvir nem ler notícias. Apetece-me alhear-me do óbvio e de um futuro que, por momentos, parece negro. Não perdi a esperança, mas tenho a sensação de que nunca estivemos tão perto do abismo como agora ou, pelo menos, tão conscientes da sua proximidade.
Fui procurar algum consolo nas palavras de António Lobo Antunes, que nos deixou por estes dias. Nunca o li de forma sistemática nos seus romances, mas acompanhei muitas das extraordinárias crónicas que escreveu no Público, sempre surpreendido pela lucidez quase cruel da sua escrita e pela forma como desmontava, frase após frase, as ilusões confortáveis com que tantas vezes tentamos explicar o mundo.
“A guerra é sempre uma derrota.” A frase de Lobo Antunes ecoa hoje com particular força num tempo em que o mundo volta a assistir, com inquietação, à escalada de violência no Médio Oriente. A história e a estupidez humana repetem-se demasiadas vezes: territórios disputados, vidas interrompidas, cidades devastadas e uma paz que parece sempre tão distante…
Mas as tempestades que marcam o nosso tempo não chegam apenas pelos noticiários internacionais. Algumas chegam-nos também bem perto de casa e, nas últimas semanas, o nosso concelho sentiu-as com particular intensidade. O mau tempo deixou marcas visíveis no litoral e provocou danos significativos em várias infraestruturas, exigindo respostas rápidas por parte das entidades públicas.
Nesse momento difícil, a Câmara Municipal de Vila do Conde, liderada por Vítor Costa, mobilizou de imediato os serviços municipais para responder às situações mais urgentes, garantindo intervenções rápidas para minimizar os impactos das intempéries. Uma resposta que demonstrou, mais uma vez, a importância da proximidade e da capacidade de ação do poder local, quando as comunidades enfrentam momentos de dificuldade. Infelizmente, essa mesma prontidão não se está a ver com igual postura por parte do Governo central, no apoio necessário para a recuperação de infraestruturas que são fundamentais para a segurança e para a economia local.
Também na importantíssima inauguração da nova Unidade de Saúde das Caxinas, a USF Navegantes, ficou evidente o papel determinante da autarquia. O equipamento, que representa um investimento significativo para reforçar os cuidados de saúde primários na zona das Caxinas e da Poça da Barca, contou com o forte empenho da Câmara Municipal, que disponibilizou o terreno e contribuiu financeiramente para a concretização da obra. A ausência de representantes do Governo na cerimónia não deixou de ser notada, sobretudo tratando-se de um equipamento de saúde pública com tanta relevância para milhares de utentes.
Mas há também histórias que nos lembram que o futuro se constrói, muitas vezes, nos gestos mais inesperados. Nesta edição, o Jornal de Vila do Conde conversou com o pequeno grande pianista vila-condense Guilherme Vale que, com apenas nove anos, já soma um percurso extraordinário, com mais de duas dezenas de primeiros prémios conquistados em concursos nacionais e internacionais. Aluno do Conservatório de Música, Teatro e Dança de Vila do Conde, já levou o seu talento a palcos de prestígio em cidades como Paris ou Nova Iorque. Histórias como a esta lembram-nos que, mesmo em tempos de incerteza, o talento, a resiliência, o trabalho e a dedicação continuam a abrir caminhos de esperança.
E assim entre guerras que parecem distantes e tempestades que nos tocam mais de perto, há uma lição que importa recordar: as comunidades não se definem apenas pelas dificuldades que enfrentam, mas pela forma como se levantam depois delas. É um cliché eu sei, mas é o óbvio que nos alimenta a esperança.
Porque, no fim de contas, a esperança nasce sempre no mesmo lugar: nas pessoas decentes e nas comunidades que insistem em levantar-se depois de cada guerra ou de cada tempestade. E nós também por aqui, sempre a acompanhar.

















