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Quinzenas de Liberdade

João Amorim Costa

João Amorim Costa

Arquiteto

Torna-se difícil escrever quinzenalmente sobre a realidade atual. Não por falta de temas, mas porque este exercício, o de parar, pensar e escrever, é hoje um verdadeiro desafio. Um desafio de clareza no meio do ruído, de honestidade num tempo tantas vezes dominado pela superficialidade das discussões e conflitos, de responsabilidade perante quem lê porque respeitamos muito os eleitores deste jornal.

Mas talvez seja precisamente isso que define este editorial: não a facilidade da opinião, porque essas, as fáceis, fúteis e por vezes maldosas, proliferam pelas redes sociais, mas a exigência da reflexão. É um desafio.

E é inevitável fazer o paralelismo. Tal como escrever estas palavras é um desafio, também a Liberdade o é…
A Liberdade não é um direito adquirido, é uma construção diária. Um exercício individual e coletivo que exige consciência, compromisso e, quase sempre, coragem. Celebramo-la por estes dias, entre o simbolismo das datas e a memória coletiva de um país que soube reinventar-se e como já referi por aqui, a nossa Democracia conquistada é um caso de sucesso.

Apetece-me, por isso, ouvir as palavras românticas da música de Paulo de Carvalho, que naquela noite nos acordaram para a Liberdade e que continuam a dizer muito sobre nós:

Quis saber quem sou
O que faço aqui
Perguntei por mim
Quis saber de nós…

Há qualquer coisa de profundamente atual nestas perguntas. Num mundo onde tudo parece acelerado e, ao mesmo tempo, baralhado e perdido. Vivemos um tempo de contradições. Globalmente, cresce a incerteza, a tensão, a sensação de que o imprevisível deixou de o ser. Mas, localmente, há sinais que não podem ser ignorados e que dão corpo a essa Liberdade de que tanto evocamos.

No passado dia 25 de abril, foi inaugurada a requalificação do Pavilhão Desportivo da Escola EB 2/3 D. Pedro IV, em Mindelo. Uma intervenção que melhora as condições para a prática desportiva e reforça o uso pela comunidade educativa e associativa. Pode parecer um gesto simples, mas não é. É precisamente aqui, nestas respostas concretas, que a Liberdade se constrói.

E, como foi afirmado nas comemorações do 25 de Abril pelo Presidente Vítor Costa:
“Cabe-nos agora honrar esse legado. Cabe-nos continuar a construir um concelho mais justo, mais desenvolvido, mais solidário, mais coeso. Prosseguir o caminho que Abril traçou e que nunca estará concluído”.

Mais do que palavras, é um compromisso. Um lembrete de que a liberdade não é estática, nem garantida. Exige continuidade, visão, responsabilidade e por isso nunca está concluída.

E talvez seja precisamente por isso que importa continuar a perguntar. Não apenas por nós, mas por todos. Pela Terra que somos e pela Comunidade que queremos ser.

Porque há momentos em que parece, tal como na música, que não há resposta. Que ninguém responde. Que o “mar não nos traz” a voz que todos procuramos.

A Liberdade nunca foi silêncio. Nunca foi espera. É ação. É responsabilidade. É escolha. E se há algo que Abril nos ensinou e que continua a ensinar, é que não basta perguntar quem somos. É preciso ter coragem para falar, para responder, para agir e para construir.

Porque, no fim, a liberdade não é um ponto de chegada.
É o ponto de partida e é também o caminho que se faz, todos os dias, por todos, para “saber quem sou”, para fazer quem somos e sobretudo construir os alicerces de quem seremos…E lá estaremos nós, livremente a acompanhar.

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