Num mundo virado do avesso, passámos os últimos 15 dias a fazer contas à vida e a tentar antecipar um futuro que, não há como negar, parece mais sombrio do que gostaríamos. Apetece ceder ao peso dos dias. Mas não, não vou por aí…. Porque a realidade — a minha (se me permitem) e a nossa — tem sempre pontos de luz.
Sou voluntariamente diretor deste Jornal, mas a minha profissão é arquiteto. Trabalho diariamente com clientes privados e também com entidades públicas, como tantos outros profissionais fazem, com normalidade, com transparência e com o rigor que a responsabilidade exige. Digo-o não por necessidade de explicação, mas por respeito. Porque a clareza nunca deve ser confundida com fragilidade, nem o silêncio com ausência de verdade. E porque hoje quando tudo se misturam — opiniões, perceções, maldade e interesses — corre-se o risco de perder o essencial: a confiança.
E agora voltando à luz, porque foi Dia do Pai, permitam-me que parafraseie o meu João, que não vê, mas sente tudo. Diz-me todas as noites, com uma certeza desarmante: “amanhã vai estar sol”. E, curiosamente, para quem o conhece está sempre, para ele, e por isso também tem de estar para nós. Foi também nestes dias que o vi sentar-se, sozinho, ao piano de cauda, no palco do auditório, e tocar, do princípio ao fim, uma pequena peça. Uns parcos meses de aprendizagem condensados num arrebatador instante de coragem e beleza. Num tempo em que tantas vezes nos sentimos perdidos, são estes momentos de superação que nos mostram o caminho. Não o digo por ser meu filho, mas por ser aquilo que verdadeiramente é, são: uma ponte para a felicidade.
Talvez por isso tenha escutado com especial atenção, nestes dias, o Presidente da Câmara, Vítor Costa, ao falar de outra ponte, esta de betão e aço, mas igualmente carregada de significado. “Não é apenas uma ponte, é bem mais do que isso. É a mobilidade de Vila do Conde que está em causa.”
A nova ponte rodoviária prevista para a zona nascente, a par da atual ponte do metro, com os respetivos acessos, será mais do que uma infraestrutura: será uma verdadeira variante ao trânsito que atravessa a cidade, já saturado. Será uma resposta concreta a um problema real. Mas, acima de tudo, será um sinal.
Um sinal de que Vila do Conde está a crescer. E está a crescer porque é Vila do Conde. Porque tem uma identidade forte, uma história rica e um potencial que durante décadas fomos repetindo e que hoje começa, finalmente, a materializar-se através de uma gestão autárquica estratégica, consistente e eficaz.
Nunca fomos tantos, nas ruas, nas praças, nos eventos, nas festas e prova disso mesmo, foi o Natal e é já o grande sucesso de multidões que se começa a viver no Mercado da Páscoa. Nunca fomos tantos a viver, a trabalhar, a visitar. Num fim de semana, numa semana de férias ou num simples dia de sol. Somos mais e seremos ainda mais. E isso é bom. Muito bom. Mas é também um desafio. Porque crescer implica preparar. Antecipar. Construir pontes, uma vez mais, entre o presente e o futuro. Vila do Conde precisa dessa nova travessia, dessa mobilidade pensada. Não apenas para resolver o trânsito, mas para acompanhar o seu próprio destino. Porque, na verdade, Vila do Conde já é uma ponte.
Uma ponte entre o que fomos e o que queremos ser. Entre tradição e modernidade. Entre quem cá vive e quem nos descobre. Entre o hoje e um amanhã que, apesar de tudo, da incerteza, dos dias cinzentos e de tanta maldade para uns poucos pequenos homens, o dia de amanhã continua a prometer sol. Aquele que nós por aqui não desistimos em acompanhar.

















