
Pedro Ferreira, de 29 anos e natural de Vila do Conde, atualmente representa o Sporting Clube de Portugal, sendo um dos nomes mais consistentes da Ginástica em Portugal.
Especialista em trampolim individual, tem um percurso internacional de destaque, com várias medalhas em Campeonatos do Mundo e da Europa ao longo da sua carreira. Entre os seus maiores feitos está o título de campeão europeu conquistado em Guimarães, além de medalhas em competições mundiais e participações de relevo ao serviço da seleção nacional.
Ligado ao Sporting há mais de uma década, renovou contrato recentemente, refletindo a sua importância e continuidade no clube. Ao longo dos anos, tem contribuído para afirmar Portugal como uma potência emergente na ginástica de trampolins, combinando consistência competitiva com resultados de alto nível.
Na semana passada, o ginasta conquistou a Medalha de Bronze no Campeonato da Europa de Trampolins, juntamente com os seus colegas de equipa.
O JVC foi conhecer melhor este vila-condense que tem levado o nome de Portugal, e de Vila do Conde, além fronteiras.
Quando surgiu a paixão pela ginástica?
Sempre estive ligado à ginástica, pois o meu pai é treinador de ginástica acrobática. Apesar de os meus pais nunca terem feito grande questão que eu fizesse ginástica, apenas queriam que eu fizesse desporto, acabei por ir experimentar a classe de trampolins porque tinha lá um amigo e, como gostei, acabei por ficar.
Diria que a paixão foi crescendo naturalmente, é um desporto muito técnico, onde se procura a perfeição de cada elemento e isso combina bem com a minha personalidade. Tudo isso aliado a sempre ter tido excelentes grupos de treino fez com que nunca tenha tido dúvidas que os trampolins eram o desporto para mim.
Quando começou na ginástica, imaginava chegar a este nível?
Penso que foi bastante gradual, eu sempre fui bastante esforçado e competitivo e nos trampolins queria, obviamente, ser o melhor no meu clube e depois a nível nacional. No entanto, quando comecei a competir a nível nacional, não fazia ideia que com 29 anos ainda estaria a saltar trampolins, quanto mais ser o segundo ginasta mais medalhado de sempre em Portugal.
Como se prepara mentalmente para competir ao mais alto nível?
Eu penso que não existe uma fórmula secreta, todas as competições são muito exigentes a nível mental devido ao elevado grau de precisão que o desporto requer e ao facto de ser muito falhativo.
Para mim foi um processo ao longo dos anos, em que comecei a perceber que desde que faça uma boa preparação, tenho de estar de consciência tranquila. Estatisticamente, falhar é inevitável em alguma altura da nossa carreira e no nosso desporto vamos falhar muitas vezes. Penso que comecei a apreciar essa componente do desporto porque essa é a razão pela qual sabe tão bem quando uma competição corre como idealizamos.
Todas as competições no momento de realizar a série são desagradáveis, mas, ao mesmo tempo, são os momentos em que me sinto mais vivo. Diria que, essencialmente, aprendi a dar valor a esses momentos, pois não os vou ter para sempre e tenho a certeza que vou sentir muito a falta dessa sensação.
Quais foram os momentos mais difíceis da sua carreira até agora?
Sem dúvida, algumas lesões que tive. Claro que já tive competições que correram muito mal ou objetivos que não alcancei, mas esses momentos fazem parte e tornam as conquistas mais saborosas. No entanto, as lesões impedem-me de fazer aquilo que mais gosto e retiram-me qualidade de vida no dia a dia durante a recuperação.
Felizmente, sempre fui muito bem acompanhado e recuperei sempre a 100% e neste momento sinto-me melhor fisicamente do que quando tinha 16 anos. Tenho que fazer um agradecimento ao meu fisioterapeuta, Manuel Ferreira, e à Fisioregio, pois sem eles as minhas recuperações não teriam sido tão bem sucedidas e mesmo estando em Lisboa há mais de 10 anos, continuam a apoiar-me no que preciso.
Como equilibra a vida de atleta com a vida pessoal?
Eu tenho a sorte de ter a vida pessoal muito ligada ao meu dia a dia de atleta. A minha namorada também é ginasta e treina comigo todos os dias. Para além disso, muitos dos meus melhores amigos ainda são ou foram ginastas e por isso temos estilos de vida semelhantes. O mais complicado são as questões de calendário e horários dos treinos que me impedem de marcar planos com os meus amigos e principalmente ir a casa, em Vila do Conde, para estar com os meus pais. Apesar disso, até considero ter um equilíbrio melhor do que a maioria das pessoas.

O que sentiu ao conquistar a medalha de bronze no Europeu de Trampolins?
Sinto que foi mais um objetivo cumprido. Se por um lado, termos uma equipa tão forte faz com que seja difícil o apuramento olímpico, por outro estamos sempre a lutar por medalhas, quer seja em europeus ou mundiais. Portugal nunca teve uma equipa com este nível e isso é o resultado do trabalho de muitas gerações antes de nós.
Ainda temos a ambição de ser campeões europeus por equipas e por isso a sensação é de que queremos mais do que o bronze. Por outro lado, quem diria que ganhar uma medalha num europeu seria algo normal e expectável. Ainda me lembro do meu primeiro bronze por equipas em 2016 e foi um feito inacreditável na altura. Passaram 10 anos desde título e até agora já conquistei um total de 13 medalhas em mundiais e europeus enquanto sénior, algo com que nunca sonhei sequer.
Em 2024 conquistou a medalha de ouro no Campeonato da Europa, sendo este o seu maior título até à data, o que sentiu ao atingir este patamar?
Senti, acima de tudo, que tirei um peso gigante de cima de mim. Apesar de nos últimos anos já me ter afirmado como um dos melhores ginastas a nível internacional e um dos melhores de sempre em Portugal, ainda não tinha conquistado um titulo numa competição major.
Para além disso, ainda não tinha conseguido chegar a uma final individual num europeu, mas já tinha ficado à porta duas vezes por uma décima. Sinto que depois desse título e desses dois anos de apuramento olímpico, em que entrei em todas as finais de competições major, já não tenho nada a provar a mim próprio e por isso aproveito ainda mais as competições.
Daqui para a frente é como se fosse tudo bónus, pois o meu maior sonho sempre foi fazer parte do topo mundial, ser tão bom como os ginastas que sempre admirei desde novo e poder dizer que alcancei esse sonho é um orgulho enorme.
Tem algum ritual antes de entrar em competição?
Eu não sou nada supersticioso, no entanto sinto que andar ajuda-me a entrar no mindset para a competição e acalma-me os nervos. Por isso, o meu único ritual é andar antes da prova, o único problema é quando tenho muitas competições acabo a semana a ter feito bastantes quilómetros em passeios.
Há alguém que tenha sido fundamental no seu percurso?
Sim, existe muita gente. Em primeiro lugar estão obviamente os meus pais, pois sempre me apoiaram em tudo e passaram todos os momentos bons e menos bons comigo. Todos os meus treinadores e colegas de treino. Das coisas que mais tive sorte na carreira como já mencionei, foi ter sempre treinadores fantásticos e excelentes grupos de treino e isso claramente fez a diferença, tanto a nível da minha carreira competitiva, como no que diz respeito às memórias com que fico dos treinos e competições.
O que significa para si representar o Sporting CP?
Tenho muito orgulho, eu nunca fui fã de futebol, desde miúdo que nunca liguei muito. No entanto, o Sporting é muito mais do que futebol, nunca nenhum clube em Portugal fez tanto pela ginástica (e pelas modalidades individuais) e grande parte dos resultados históricos dos últimos anos devem-se em grande parte ao trabalho feito no Sporting. Ao fim de 10 anos a representar o clube, até já começo a estar atento aos jogos de futebol… quem diria.
Quais são os principais objetivos para os próximos anos?
Honestamente, para além dos objetivos no que diz respeito a pontuações que quero atingir, não tenho nada muito específico. Nesta fase da minha carreira, em que já conquistei grande parte dos pódios em competições major, já não defino grandes objetivos de classificação para além de entrar nas finais de todas as competições em que compito.
Numa final o nível é tão alto que só tenho de garantir que me preparei da melhor forma possível e que executo as minhas series sem falhas. Quando isso acontece, vou estar na luta pelos lugares de topo e algumas das vezes isso vai corresponder a uma medalha e outras não, é apenas estatístico, mas para lutar pelas medalhas é obrigatório entrar na final.
Ver medalhas como objetivos torna toda a competição muito emocional e isso não é bom.
Pensa nos Jogos Olímpicos ou em novos títulos europeus/ mundiais?
Sim, penso em tudo isso, apesar de não definir como objetivos, estou sempre a sonhar com novos títulos, porque quando parar de sonhar com isso se calhar está na altura de terminar a carreira.
Sei que mais títulos mundiais e europeus são muito possíveis de alcançar, como em tudo, é preciso que corra bem no momento certo, mas felizmente tenho tido essa “sorte” nos últimos anos.
Um exemplo disto é que neste europeu, se não fosse uma falha minha no sincronizado, teríamos sido campeões da Europa. Como disse, às vezes vai correr bem, outras não.
No caso dos Jogos Olímpicos, a questão é diferente, não tem tanto a ver com meritocracia, mas sim com política, pois os trampolins têm muito poucas vagas e de forma resumida só pode ir um ginasta por país. Como a equipa portuguesa é muito forte faz com que três de nós, mesmo estando no top 10 do mundo e em posição de conseguir uma vaga, fiquem de fora, pois só pode ir um.
Obviamente que quero muito ir aos Jogos, mas não considero isso um medidor do meu sucesso, já consegui o apuramento duas vezes, na maioria das modalidades já teria participado em dois Jogos e sou muito superior a mais de metade dos ginastas que podem ir. A maioria dos atletas tem o sonho de ser bom o suficiente para ir a uns Jogos Olímpicos. Eu sou bom o suficiente para ir a vários, apenas estou limitado pelas vagas e pela qualidade Portuguesa.
Que mensagem gostaria de deixar aos jovens que querem seguir a ginástica?
A mensagem é que pratiquem desporto, quer seja ginástica ou outro qualquer. E, especialmente, que passem pela competição independentemente do nível que forem capazes de atingir. Nos dias de hoje, os valores do desporto são cada vez mais escassos nos mais jovens e claramente quem passou pela competição, pelos treinos diários, pela consistência e pela busca da perfeição no meio de muitas adversidades, está certamente em vantagem para a vida adulta.
