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14 de Outubro, 2026 23:26

“A gente vai continuar”

João Amorim Costa

João Amorim Costa

Arquiteto

Jorge Palma deixou-nos. Deixou-nos com uma tristeza como há muito não acontecia. Num tempo em que o valor das pessoas talentosas parece medir-se pelo seu grau de celebridade, pelo número de seguidores ou de visualizações, o desaparecimento de Jorge Palma cria um vazio que muitos de nós talvez desconhecêssemos existir. É, infelizmente, um cliché e uma característica do nosso tempo: muitas vezes só percebemos verdadeiramente o valor de alguém quando o seu desaparecimento nos faz sentir a falta que nos faz. E este criador de palavras com música, ou de música com palavras, deixa um espaço que dificilmente alguém voltará a ocupar.

“A Gente Vai Continuar”, de Jorge Palma, é um desses símbolos, uma dessas canções, um conjunto de palavras profundamente e genuinamente portuguesas. Não promete que tudo vai correr bem. Não diz que o caminho será fácil. Diz-nos apenas, com aquela teimosia tão nossa, que há sempre um dia seguinte. E que é preciso chegar lá.

Pensei nisso neste 5 de outubro. Na República, naturalmente, mas sobretudo no significado de continuar. Porque continuar é pegar no que recebemos, respeitar a memória e ter coragem para prosseguir e acrescentar. Vila do Conde também se constrói assim: entre aquilo que fomos e aquilo que ainda queremos ser.

Talvez por isso haja um simbolismo especial no Convento do Carmo. Depois de Vila do Conde ter recebido, em 2025, a formação de magistrados, o novo ano do Centro de Estudos Judiciários começa agora naquele edifício histórico. Onde durante séculos se escreveu uma parte da memória da cidade, vão formar-se Juízes e Magistrados do Ministério Público de toda a Região Norte. O passado não fica fechado atrás de uma porta: abre-a ao futuro. E há decisões políticas que valem muito também por isso, porque deixam alguma coisa para o depois…

Na Avenida Júlio Graça acontece outra forma de continuar. Mexer numa avenida que pertence à memória dos vila-condenses exige coragem, porque mudar aquilo a que nos habituámos nunca é pacífico. A proposta procura uma avenida mais bonita, mais organizada e mais segura, com muito mais estacionamento, circulação mais disciplinada, Zona 30 e mais espaço para quem anda a pé. E tem uma qualidade que aprecio: não se apresenta como uma verdade absoluta. Experimenta-se, avalia-se e corrige-se. Governar também é isto: decidir quando é preciso decidir e saber ouvir quando é preciso corrigir.

Vítor Costa tem repetido muitas vezes que quer devolver a cidade às pessoas. Na Júlio Graça essa ideia vai ser posta à prova. E ainda bem. As cidades não se governam apenas com projetos no papel. Governam-se na rua, no trânsito de todos os dias, no lugar onde conseguimos estacionar, no passeio onde caminhamos, na árvore que fica, no banco onde alguém se senta. É aí que uma ideia deixa de ser uma promessa e passa a ser cidade.

Também em Tougues se percebe que continuar nem sempre significa avançar sem olhar para os lados. Perante as dúvidas sobre o projeto de biometano, os moradores quiseram ser ouvidos. O Presidente da Câmara ouviu essa inquietação e mostrou disponibilidade para receber os moradores e esclarecer o processo. É assim que deve ser. Quem governa tem de ter convicções, mas não pode perder a capacidade de escutar. A democracia não é concordarmos todos. É podermos discordar sem deixarmos de caminhar juntos.


Talvez seja essa a ligação entre notícias aparentemente tão diferentes e o 5 de Outubro que celebramos. Uma República não se faz apenas de cerimónias, bandeiras ou discursos. Faz-se de instituições que permanecem, de património que ganha vida, de ruas que mudam, de cidadãos que perguntam e de eleitos que respondem. Faz-se de escolhas. E faz-se, sobretudo, da capacidade de continuar.

Ao fim de quase cinco anos, haverá muito por onde julgar Vítor Costa. Pelo que fez, pelo que anuncia que vai fazer e pelo que já está a concluir. É assim que deve ser. Mas há, sem dúvida, um concelho, um território e uma comunidade que hoje continuam a mexer, a recuperar património, a começar e a concluir obras, a discutir projetos e a pensar no caminho que ainda falta percorrer. Porque há ainda estrada para andar. Porque a gente vai continuar.

E nós aqui, neste vosso Jornal, a acompanhar.

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