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Os antidepressivos e os calmantes

Em fases de crise vivencial, é frequente sermos invadidos por uma frustração profunda e uma névoa de desesperança. Importa, contudo, traçar uma fronteira clara: onde há ansiedade, existe um ser humano biológico e psicossocial; mas onde há uma perturbação instalada, há doença e perda de funcionalidade.
Na Psiquiatria, os antidepressivos assumem-se como pilares fundamentais no tratamento não apenas da depressão, mas também das perturbações de ansiedade. Estes fármacos não causam dependência nem têm como objetivo alterar a personalidade. Funcionam, sim, como um suporte biológico que, em harmonia com a psicoterapia, permitem recuperar a clareza e a energia necessárias para dissipar o colorido acinzentado com que a angústia parece ofuscar qualquer solução.

Enquanto este alicerce de longo prazo é construído, surge muitas vezes a necessidade de um alívio mais imediato, o que nos conduz ao papel dos chamados “calmantes”. Podemos olhar para as benzodiazepinas como uma boia de salvação lançada no meio de um turbilhão emocional: elas não resolvem a corrente de fundo, mas permitem recuperar o fôlego. São ferramentas de uma eficácia cirúrgica no alívio rápido da sintomatologia ansiosa e por vezes da insónia, quando a causa da mesma é uma mente preocupada e incapaz de reduzir o seu nível de alerta. Contudo, são instrumentos que exigem uma monitorização clínica rigorosa.

Por isso, o seu uso deve ser limitado ao tempo estritamente necessário, integrando-se num plano terapêutico que vise a recuperação global da funcionalidade. E apenas quando necessário: medicar um luto, uma decisão importante ou transição de etapa pode implicar uma dissociação da experiência, que prolonga, atrasa e piora a adaptação normal à perda e à mudança. Mais do que a prescrição, o ato médico em Psiquiatria encerra um compromisso com a psicoeducação.

É fundamental compreender que a nossa forma de ser e reagir é moldada por estratégias e engenhos que fomos desenvolvendo ao longo da vida para lidar com o sofrimento. Quando esses mecanismos de adaptação se tornam ineficazes perante novos desafios, a crise surge como um sinal de que podemos estar a precisar de novas ferramentas. A verdadeira resiliência não é resistir à dor sem pedir ajuda. Pedir apoio é o primeiro passo, normalmente o mais assustador. A partir da o caminho pode ser feito em conjunto.

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