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Quando emerge a psicose… ou a loucura aparece

O termo loucura, nome antigo das psicoses, é sempre ameaçador quando enunciado em qualquer contexto…importa estar atento às suas primeiras manifestações, para iniciar uma intervenção adequada e que reduza os riscos associados.

O primeiro episódio psicótico associado às patologias mentais mais graves, ocorre mais comummente entre o final da adolescência e o final da segunda década de vida, com mais de três quartos dos homens e dois terços das mulheres a experienciar o seu primeiro episódio antes dos 35 anos.

Constitui uma experiência avassaladora para o indivíduo afetado e a estrutura familiar, pela sua estranheza, imprevisibilidade comportamental e disrupção associada, nomeadamente ao nível das relações entre as pessoas.

As perturbações psicóticas são debilitantes, considerando-se que quanto maior for a duração da psicose não tratada, pior será a sua repercussão a curto e longo prazo, a nível da recuperação pessoal, mas também na necessidade de recursos e serviços médicos, com custos globais acrescidos para os próprios, respetivas famílias e para a sociedade global.

Um estado psicótico inaugural pode ser definido pelo aparecimento pela primeira vez na história do indivíduo de sintomas psicóticos com perda de contacto com a realidade. Os sintomas psicóticos que habitualmente surgem, são os delírios (convicções irrealistas e irredutíveis perante qualquer argumentação lógica); as alucinações (perceções erradas nas variadas modalidades sensoriais auditivas, táteis ou visuais) e ainda alterações dos pensamentos e /ou comportamentos desorganizados.

Os estudos realizados nesta área evidenciam que uma intervenção precoce nesta área permite ajudar as pessoas a recuperar de forma mais completa e a restabelecer uma boa qualidade de vida, com integração eficaz no meio familiar, laboral e social. A intervenção familiar melhora estes resultados de forma significativa, através do apoio médico à família, no sentido de esta compreender a experiência da psicose e aprender a responder adequadamente ao longo do processo, quer a eventuais novas descompensações ou a situações de abandono terapêutico, quer às expectativas criadas e por vezes não cumpridas da família em relação ao doente.

A referenciação o mais precoce possível para uma consulta de Psiquiatria permite a intervenção precoce e pode reduzir os riscos ao nível da recaída, do risco de suicídio e do número de internamentos hospitalares e na perspetiva do doente, no emprego, educação e bem-estar.

Numa abordagem inicial, as consultas são complexas e intensas, pois verificam-se no encontro entre alguém que na maior parte das vezes não tem a noção da gravidade do seu estado mental (ausência de juízo crítico), respetivos cuidadores e o pessoal técnico.

Esta complexidade subjaz à necessidade de cumprir um conjunto alargado de objetivos. A primeira função destas consultas deverá ser a de facilitar a aceitabilidade dos doentes da ajuda de que necessitam e contribuir para uma intervenção mais precoce a nível farmacológico.

Estes doentes necessitam que lhes sejam fornecidos cuidados médicos de excelência, a nível psiquiátrico, médico (global) e ainda suporte psicossocial e vocacional. A importância da existência de equipas multidisciplinares na realização deste acompanhamento é evidente. Por outro lado, é também prioritário apoiar, informar e aconselhar as famílias e os cuidadores; também estes elementos estão a tentar ultrapassar uma fase dolorosa da sua existência, na maior parte das vezes sem conhecimentos que lhes permitam compreender o que está a acontecer.

A intervenção precoce nestes doentes possibilita contribuir para a redução da taxa de suicídio nestes grupos etários e para a menor incapacidade dos jovens, a nível social e cognitivo, com melhor integração e mais rápida, no mundo escolar e laboral.

A curto e médio prazo, com um tratamento regular e adequado, os benefícios desta abordagem contemplam a redução de recurso a cuidados médicos de urgência, e a redução do risco de futuras hospitalizações, devido a uma melhor gestão e redução do risco de recaída.

A referenciação deveria constituir uma verdadeira “via verde”, pela sua rapidez e celeridade, sobretudo para aqueles indivíduos com sintomas psicóticos atenuados, breves, intermitentes e limitados; para aqueles com sintomas com uma duração igual ou superior a uma semana, designadamente ideias de referência, crenças ou pensamentos bizarros, comportamento estranho, pensamento mágico ou perturbações de perceção.

Outro grupo importante são os doentes referenciados por evidenciarem fatores de risco de traço ou estado, tais como a existência de familiares em primeiro grau com perturbação psicótica (esquizofrenias, doenças bipolares), ou com diminuição marcada do grau de funcionamento cognitivo, social e interpessoal de forma incompreensível e recente.

Também os indivíduos com algumas queixas, mesmo que inespecíficas, no contexto de consumo de substâncias ilícitas, constituem um grupo de risco para o desenvolvimento de quadros psicóticos.
Portanto, a intervenção a desenvolver procurará potenciar a não estigmatização dos indivíduos que procuram ajuda, procurando criar expectativas positivas e sobretudo, realistas, relativamente a esta questão e facultando-se serviços de qualidade em saúde mental.

Como já foi abordado anteriormente, a inclusão das famílias neste processo é essencial para obter melhores resultados na intervenção precoce. Por um lado, têm uma perceção mais fina das alterações, mesmo que subtis, do funcionamento dos indivíduos; permitem a vigilância da sua evolução quando o tratamento é iniciado e detetam em primeira mão pequenos sinais de eventuais recaídas; são também aliados fundamentais quando a adesão terapêutica se constitui como um problema.

A necessidade de internamento poderá ter que ser equacionada, relevante se o indivíduo afetado manifestar alterações muito graves do comportamento, ideação suicida ou homicida, ausência de crítica para o próprio comportamento ou recusa no tratamento.

Quer se trate de observação em contexto de internamento, ou em consulta, a primeira abordagem médica terá que incluir a exclusão de patologias orgânicas que mimetizem quadros psicóticos primários através de estudos analíticos, imagiológicos ou outros considerados relevantes. A colaboração da Neurologia poderá, nestes casos, ser importante.

O tratamento inicial de um quadro psicótico envolve a utilização de fármacos antipsicóticos, essenciais para o controlo dos sintomas disruptivos. O tratamento psicofarmacológico não esgota a abordagem terapêutica destes estados iniciais: além da abordagem familiar, impõe-se a realização de psicoterapia, enquanto espaço privilegiado de partilhas das vivências ameaçadoras, compreensão das mesmas e aprendizagem de estratégias para lidar com os sintomas disruptivos.

A evolução e o prognóstico destes quadros clínicos dependem da existência de orientação psicossocial e vocacional, com vista à integração mais rápida e conseguida do indivíduo na sociedade em geral e na família.

Só com cuidados de saúde bem estruturados e adequados nestas graves condições psicopatológicas, se poderá alterar o prognóstico habitualmente considerado reservado destes doentes e possibilitar que voltem a considerar-se cidadãos capazes e realizados na sua existência!

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