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Um Natal entre fantasmas, escolhas e responsabilidade

João Amorim Costa

João Amorim Costa

Arquiteto

Há histórias às quais eu regresso todos os anos não por tradição, mas por necessidade. Um Conto de Natal, de Charles Dickens, é uma delas. Não porque fala apenas do Natal, mas porque fala do tempo — do que fomos, do que somos e, sobretudo, do que ainda podemos ser.

2025 foi, em muitos aspetos, um ano habitado por fantasmas.

O fantasma do Passado mostrou-nos um mundo que parecia ter aprendido com os seus erros, mas que voltou a cair nas mesmas armadilhas. Conflitos prolongados, desigualdades agravadas, sociedades mais polarizadas e um ruído constante que ameaça a essência da democracia.

Em Portugal, esse Passado, que insiste em regressar, revelou fragilidades antigas: uma crise habitacional que deixou de ser exceção para se tornar regra, salários que não acompanham o custo real de vida e uma classe média cada vez mais pressionada entre o que ganha e o que paga.

Depois surge o fantasma do Presente, aquele que não julga, apenas mostra.

Mostra-nos uma Vila do Conde que, apesar do contexto global e nacional adverso, continua a fazer escolhas. Um concelho onde o poder local não se limita a reagir, mas procura antecipar. O orçamento municipal para 2026, no valor de 155 milhões de euros — o maior de sempre, com um crescimento de 6,16% face ao ano anterior — é um sinal claro dessa ambição. Para o Presidente Vítor Costa trata-se de “uma oportunidade única, que dificilmente se repetirá”, sustentada no sucesso das candidaturas a fundos comunitários, que já ultrapassam os 115 milhões de euros, grande parte deles em execução.

Este Presente também se constrói com decisões estruturais, como a assinatura do Contrato-Programa entre a Câmara Municipal de Vila do Conde e a Santa Casa da Misericórdia, que prevê a construção e colocação no mercado de 450 habitações para venda ou arrendamento a preços acessíveis, não é apenas um número: é uma resposta concreta a um dos maiores desafios do nosso tempo. Uma aposta clara na classe média e média-baixa, frequentemente esquecida entre os extremos do nosso debate político.

Mas o Presente não vive só de números e obras. Vive de pessoas. E o espírito de Natal voltou a fazer-se sentir no Convívio de Natal Sénior, na Quinta da Malafaia, onde a união, a alegria e a partilha lembraram que governar também é cuidar. Num tempo acelerado e muitas vezes indiferente, estes gestos têm um valor extraordinário, impagáveis para os corações que enchem.

E então chega o mais inquietante de todos: o fantasma do Futuro. Não fala. Observa.

Um Futuro onde as cidades podem ser mais inclusivas e menos fragmentadas. Onde a habitação pode voltar a ser um direito e não um privilégio. Onde o investimento público pode, deve e vai gerar coesão. Onde o jornalismo local pode continuar a ser serviço público — ou perder-se no imediatismo…

Esse futuro ainda não está escrito. Dickens lembrava-nos que Scrooge não foi salvo por magia, mas por consciência. Mudou porque percebeu que ainda ia a tempo. Gosto disso. Talvez essa seja a maior lição para Vila do Conde, para Portugal e para o mundo: ainda vamos a tempo. A tempo de exigir mais sem destruir. De criticar com responsabilidade. De governar com visão. De participar, em vez de apenas comentar. Tempo de paz.

O Natal não resolve os problemas do mundo, mas lembra-nos, pelo menos uma vez por ano, que a indiferença é sempre a pior escolha. Temos de saber escutar os nossos fantasmas. Porque o Futuro só assusta quando fingimos que não o estamos a construir…

Boas festas! Que 2026 seja mais humano, mais justo e menos ruidoso.

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