Neste jornal gostamos, quase sempre, de escrever sobre o lado bom da nossa terra. Sobre as obras que transformam Vila do Conde, sobre as associações que resistem, sobre as pessoas anónimas ou notáveis que ajudam os outros, sobre o mar, a memória, as tradições e os pequenos sinais de esperança que ainda fazem sentido num tempo tantas vezes duro e agressivo.
Nunca tivemos gosto particular pela exploração da polémica, pelo ruído fácil ou pela espuma dos dias. Talvez porque continuemos a acreditar que o jornalismo local deve servir para unir mais do que para dividir. Mas há momentos em que o silêncio deixaria de ser prudência para passar a ser indiferença. E a gravidade dos factos que vieram agora a público obrigam-nos a falar.
Perante a clareza e por vezes a justificável dureza das palavras da última conferência de imprensa de Vítor Costa, há muito mais do que vergonha e indignação, pelos recentes acontecimentos que fizeram Vila do Conde ser notícia nacional. Ouvimos nas suas palavras uma preocupação profunda, pelo impacto que este caso pode ter sobre tantos homens e mulheres que hoje continuam a servir as suas freguesias, assembleias e instituições locais com enorme dedicação e sentido de missão.
Porque há momentos na vida democrática de uma comunidade que nos envergonham. Não apenas pelos factos em si, mas pela sombra que lançam sobre todos aqueles que, diariamente, servem a causa pública com honestidade, sacrifício e espírito de missão.
Os acontecimentos que alegadamente envolvem o presidente da Junta de Freguesia de Vila do Conde, são graves. Muito graves. E devem ser tratados com a firmeza que a democracia exige, pela justiça, pelas instituições e também pela responsabilidade política.
Mas há também uma outra obrigação moral que não pode ser esquecida: defender o nome e a dignidade de milhares de homens e mulheres que, ao longo de décadas, ocuparam cargos autárquicos em Vila do Conde e no país, quase sempre longe das luzes da ribalta, muitas vezes sacrificando a vida pessoal e profissional, apenas porque acreditavam na sua terra e nas suas pessoas.
A democracia local portuguesa, com todos os seus defeitos, limitações e imperfeições, foi e é construída por gente séria. Por autarcas que deram e dão anos da sua vida às suas comunidades, sem nada pedir em troca além do respeito pelos seus mandatos.
Há agora quem queira agora transformar um caso grave, isolado, numa sentença coletiva sobre toda a política e sobre todos os políticos. E, infelizmente, vê-se já alguma oposição aproveitar este momento, não para defender a transparência ou a dignidade da vida pública, mas sobretudo para tentar atingir politicamente o Partido Socialista. Para mim é um erro grave. Porque essa cegueira de combate político acaba também por atingir e desvalorizar também os seus, eleitos pelos próprios partidos da oposição, homens e mulheres que diariamente trabalham com dedicação nas freguesias e instituições do concelho. Quando se destrói indiscriminadamente a confiança nas instituições e em quem nelas serve, ninguém fica de fora. Esse talvez seja hoje um dos maiores perigos para a democracia: transformar a legítima indignação por um caso isolado, num instrumento de populismo e descrédito geral da política.
Como afirmou Vítor Costa, “nós não somos todos iguais”. E essa frase, simples, mas poderosa, talvez seja hoje uma das mais importantes para proteger a própria democracia local.
Não somos, não são, todos iguais aos que confundem o interesse público com interesses pessoais. Não são iguais aos que usam cargos públicos para benefício próprio. Não são iguais aos que colocam em causa a confiança das populações nas instituições.
Em Vila do Conde existem centenas de pessoas que todos os dias servem juntas de freguesia, assembleias municipais, associações, coletividades e instituições com enorme dedicação. Pessoas que recebem telefonemas às duas da manhã, que resolvem problemas silenciosamente, que ajudam famílias e que suportam uma pressão constante apenas por amor à terra. São essas pessoas que importa defender hoje.
A justiça fará o seu caminho. A política também deve fazer o seu, sem hesitações nem tibiezas. Mas a sociedade não pode cair na tentação fácil do julgamento coletivo.
Porque quando começamos a destruir indiscriminadamente a credibilidade de todos os que participam na vida pública, o que sobrará não será nada melhor. Será apenas mais vazio, mais ressentimento e mais populismo. Vila do Conde merece muito mais do que isso, merece e terá, na força de todos homens e mulheres bons que se entregam à causa pública. Por isso estaremos aqui, sempre, a lutar e a acompanhar.












