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20 de Agosto, 2026 22:14

Memórias de dias de verão

João Amorim Costa

João Amorim Costa

Arquiteto

Hoje, a propósito das notícias que por aqui contamos, apetece-me falar dos verões da minha juventude. Não apenas da praia, dos mergulhos, dos dias intermináveis ou da alegria das festas de São João. Apetece-me falar de outras memórias. Daquelas que regressam trazidas por um lugar, por um nome, por uma fotografia ou simplesmente pelo cheiro de uma tarde quente em Vila do Conde.


Nunca conheci pessoalmente a Tia Eva. E, no entanto, sinto que a conheci um pouco. Conheci-a pelas palavras dos meus pais, de quem com ela viveu, pelas histórias que ouvi contar, pelo carinho com que o seu nome era pronunciado. Eva Pereira Marques foi uma daquelas mulheres que não pertencem apenas à família em que nasceram. Pertencem a uma comunidade inteira. Matriarca das Caxinas e da Poça da Barca, mulher de coragem e de convicções, ligada às causas em que acreditava, a Tia Eva atravessou gerações. Há pessoas assim. Mesmo depois de partirem, continuam presentes, nas conversas, nos gestos, na memória dos seus e de todos.


Talvez seja isso o verão: um lugar onde as memórias nunca envelhecem nem desparecem.


O Parque de Jogos, agora em requalificação, foi sempre um pulmão e um coração desta cidade. Mas, na minha adolescência e juventude, era também um lugar de refúgio e de liberdade. Eu, como tantos outros vilacondenses, frequentei a Escola do Rio, mesmo ali ao lado, e por isso aquele espaço estava sempre à mão. Para passar, brincar, descontrair, praticar desporto e, mais tarde, namorar.


Havia “o ténis”. Era assim que todos lhe chamávamos. Não era apenas um conjunto de campos. Era um verdadeiro centro social, um ponto de encontro onde se cruzavam vidas, amizades e gerações. Tinha um bar e uma esplanada como não havia igual. Ali se ficava sem olhar para o relógio, porque os verões da juventude pareciam não ter fim.


É, por isso, com particular alegria que vejo o Município de Vila do Conde investir na requalificação deste espaço. A inauguração dos novos courts de ténis, no passado dia 12 de julho, assinala a conclusão da primeira fase de uma intervenção que devolve qualidade, dignidade e melhores condições a um dos equipamentos mais marcantes da nossa cidade. Renovar o Parque de Jogos não é apenas melhorar campos e jardins. É cuidar de um lugar que faz parte da nossa memória coletiva.


E falar dos verões de Vila do Conde é falar também da Feira Nacional de Artesanato. Durante décadas, a feira encheu a cidade de gente, de vozes, de cheiros, de cores e de tradições. Era e continua a ser um lugar onde Portugal se encontra. Porque a tradição só permanece viva quando continua a ser partilhada.
Entretanto, novos acontecimentos foram ocupando os nossos verões. O “Curtas” Vila do Conde é hoje uma referência internacional e prepara-se para realizar, a sua 34.ª edição, trazendo novamente à cidade estreias, convidados, exposições, cineconcertos e novos olhares sobre o mundo. O Vila Summer que prolonga a animação até 30 de agosto, com dezenas de iniciativas culturais, musicais, recreativas e gastronómicas. E a Noite Branca que voltou a colocar milhares de pessoas nas ruas, no passado dia 11 de julho, transformando o centro da cidade num enorme palco ao ar livre.


São acontecimentos diferentes, mas todos contam a mesma história: Vila do Conde sabe receber. Sabe preservar as suas raízes e, ao mesmo tempo, abrir espaço para aquilo que é novo.


É também desse futuro que nos fala a entrevista a Laura Costa. Natural de Macieira da Maia, começou no Grupo Desportivo e Cultural de Azurara, descobriu a dança, o teatro e o canto, passou pela Escola de Artes da Vila e foi construindo um caminho que hoje a coloca entre os jovens talentos da música portuguesa. O seu percurso mostra-nos que o talento também nasce aqui.


Mas uma cidade não vive apenas das suas memórias. Vive também da coragem deste Executivo de transformar o que durante demasiado tempo permaneceu parado. A demolição do antigo Centro de Saúde e dos antigos Armazéns Municipais, junto à estação de Metro de Santa Clara, está finalmente na fase final. Termina assim uma situação que se arrastava há cerca de duas décadas. A articulação entre o Município e a Metro do Porto permitiu abrir caminho para uma nova página num lugar central da cidade, onde perto nascerá a nova ponte.


Também no Centro Comunitário das Caxinas e Poça da Barca, cerca de mil pessoas participaram no XXII Congresso da Federação Distrital do Porto do Partido Socialista. Um encontro de debate e participação, presidido na sua mesa por Vítor Costa. Num tempo em que tantos se afastam da vida pública, ver jovens, autarcas e cidadãos reunidos para discutir o futuro continua a ser um sinal importante de vitalidade democrática.


Talvez seja essa a grande força de Vila do Conde. Conseguir guardar as suas memórias, sem ficar prisioneira delas. Recordar a Tia Eva, “o ténis”, a Feira do Artesanato e os verões da nossa juventude, enquanto se renovam equipamentos, se descobrem novos talentos, se recuperam espaços abandonados e se prepara o futuro. Os dias de verão passam depressa. As noites terminam. As festas desmontam-se. Os palcos apagam-se. Mas aquilo que vivemos fica. Fica na memória de quem esteve e na história de quem apenas ouviu contar. Porque há pessoas, lugares e verões que nunca chegam verdadeiramente ao fim. Vila do Conde é assim. E nós por aqui, a acompanhar.

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