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6 de Novembro, 2026 16:58

O meu lugar

João Amorim Costa

João Amorim Costa

Arquiteto

«O lugar onde o coração se esconde», escreveu Ruy Belo sobre Vila do Conde. Recorro muitas vezes aos poetas que cantam a nossa terra. Há versos que parecem esperar pelo momento de serem relembrados. Este guarda qualquer coisa de nós: a ligação à terra, às suas ruas, às praças e, sobretudo, às pessoas que fazem de tudo isso o nosso lugar.

Mas o coração também precisa de uma casa. De uma porta que se abre. De uma mesa onde repousar o dia e da tranquilidade de saber que o amanhã continuará ali. É essa certeza que falta hoje a demasiados portugueses. Jovens que trabalham e adiam a vida. Famílias assustadas com a próxima renda. Pessoas que descobrem, entre as contas da vida, que talvez já não possam continuar ali, no seu lugar.

Nas manifestações e nos acampamentos das últimas semanas, essa inquietação ganhou voz. Por detrás dos cartazes há uma pergunta que o país precisa de ouvir: haverá lugar para mim?

Custa imaginar que os nossos filhos possam deixar de caber na terra onde cresceram ou naquela onde sonharam. Que tenham de partir porque o salário não chega. Que o seu lugar fique apenas na memória, numa esperança frustrada ou na saudade de uma visita de domingo. Não foi esse o lugar que os meus pais me deixaram. Não é esse o lugar que queremos deixar aos nossos filhos…

Em Vila do Conde, uma nova edição do apoio municipal ao arrendamento ajuda famílias a permanecer. É justo reconhecer mais este esforço da Câmara e de Vítor Costa, a par das casas já construídas, onde a vida já acontece, e das que ainda virão.

Mas o país tem de fazer mais. Construir, reabilitar, acelerar e disponibilizar casas a preços que as pessoas possam pagar, comprar ou arrendar. E fazê-lo depressa. Porque o tempo passa e a vida não espera, sobretudo por quem precisa de um lugar para a começar. Ou para continuar.

Entretanto, a nossa terra transforma-se. Cuidam-se os lugares que sentimos nossos. Na Avenida Júlio Graça, as obras avançam: novos sentidos de circulação, estacionamento reorganizado, mais segurança para caminhar ou simplesmente ficar. Sim, esta sempre foi a nossa «sala de estar», onde quase tudo acontece e de onde guardamos algumas das melhores memórias. Assim continuará, com novos hábitos e novas regras, num processo que se pretende participado. Para que saibamos cuidar melhor deste lugar e senti-lo cada vez mais nosso.

Em Azurara, o futuro Parque Ribeirinho promete devolver-nos outra proximidade com o Ave. Também aí haverá lugar para o encontro, para o descanso e para a vida que se sonha e continua. É bom sentir que se cuida destes espaços. É essencial que as pessoas possam continuar a viver perto deles. Que a cidade renovada conserve os rostos que a tornam de todos e, ao mesmo tempo, de cada um.

Também o Rio Ave FC é um lugar nosso. Na entrevista desta edição, Alexandrina Cruz fala de identidade, dedicação e futuro. Porque há pertenças que atravessam gerações e nos fazem sentir no nosso Clube como em nossa casa, no nosso lugar.

Não tenho dúvidas de que esse é o nosso desígnio: dar futuro à pertença, dar lugar a quem precisa. Para que os nossos filhos encontrem aqui a sua vida e para que quem cá fez a sua, possa ficar…

E para que, no «lugar onde o coração se esconde», haja uma casa para quem sonhe. Há futuro a construir. Já. E estaremos aqui para o acompanhar.

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