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Entrevista a Guilherme Vale

JVCEntrevista4 meses atrás

Com apenas nove anos, Guilherme Vale já soma um percurso notável no piano, com 21 primeiros prémios conquistados em concursos nacionais e internacionais. Aluno do Conservatório de Música, Teatro e Dança de Vila do Conde, iniciou os estudos de piano aos três anos, sob orientação do professor Nuno Oliveira, e já se apresentou em salas prestigiadas em Portugal e no estrangeiro, como o Pavillon de la Sirène, em Paris, e o The DiMenna Center for Classical Music, em Nova Iorque.
O Jornal de Vila do Conde foi conversar com o jovem pianista vilacondense para conhecer melhor o seu percurso, as experiências que já viveu em palco e os sonhos que guarda para o futuro.

Guilherme, começaste a tocar piano muito cedo. Como nasceu o teu interesse pela música?
Em minha casa sempre houve muito interesse pela música. Depois os meus pais inscreveram-me no Conservatório de Vila do Conde, mas sem instrumento. Comecei por ir apenas para o Coro da Pré-Iniciação. Ao fim de alguns meses a ver os outros alunos nas audições, acabei por pedir aos meus pais para experimentar o piano. Foi assim que comecei a ter aulas de piano, na altura com 3 anos de idade.

Lembras-te da primeira música que aprendeste a tocar?
Sim, claro. Não era bem uma música, mas mais um pequeno exercício. Chamava-se “Let’s Play”. O piano tem 88 teclas e esse exercício ensinava a descobrir onde ficava a nota Dó na parte central do piano.

Como é estudar no Conservatório de Música, Teatro e Dança de Vila do Conde?
Gosto muito. Posso dizer que é a minha segunda casa. Tenho feito ali muitos amigos e fui sempre muito bem acolhido por todos.

Tens participado em vários concursos e já ganhaste muitos prémios. O que significam essas conquistas para ti?
Eu vejo os concursos como desafios para poder mostrar o resultado do meu estudo e para tentar melhorar as peças que vou preparando ao longo do ano. Os prémios são sempre um reconhecimento, mas não são o mais importante. O que de melhor tenho trazido dos concursos são as experiências, o crescimento musical e os muitos amigos que já fiz por vários pontos do país.

Já tocaste em salas importantes em Portugal e no estrangeiro. Há algum concerto que nunca vais esquecer?
Gostei muito de tocar em Nova Iorque porque também me permitiu visitar uma cidade que queria muito conhecer e que só conhecia dos filmes.
Outra sala de que não me vou esquecer é o Teatro Micaelense, em Ponta Delgada, onde toquei com transmissão para a RTP Açores na noite em que fazia nove anos. Comecei o concerto com oito anos e acabei com nove e com direito a “parabéns” cantados dentro do próprio teatro. Foi um dia mesmo bom.
Mas aquela atuação que acho que irei recordar para sempre é a primeira vez que toquei com orquestra. Em 2025, tive o prazer de tocar um Concertino de Haydn para piano e orquestra no Teatro Municipal de Vila do Conde e foi um momento muito especial para mim.

No passado mês de fevereiro, tocaste no Teatro Rivoli no Porto. Como correu esse concerto?
Esse foi, de todos, o mais importante recital que tive até hoje, porque foi o primeiro recital que dei totalmente a solo. Dei-lhe o nome de “Viagem no Tempo” e procurei apresentar peças que iam desde o Período Barroco até ao presente.
Além disso, foi um recital comentado por mim mesmo, em que pude explicar a história das peças e dos compositores que interpretei e acho que isso tornou tudo ainda mais interessante.
O concerto correu bem. Fiquei surpreendido porque os bilhetes esgotaram em três horas. Foram três meses e meio de muito trabalho de preparação. Mas no dia fui muito bem recebido no Rivoli e o piano era incrível. Acho que as pessoas gostaram do que ouviram e eu diverti-me imenso naqueles 45 minutos.
Fiquei também muito feliz por ver lá muitos amigos e muita gente de Vila do Conde que se deslocou ao Porto de propósito.

Que compositores gostas mais de tocar no piano? Tens algum pianista ou músico que admires muito?
É difícil responder e ainda há muito repertório que só com o tempo é que vou conhecer ou conseguir tocar. Mas do que já conheço, talvez Bach, Mozart, Beethoven, Chopin e Ivo Cruz sejam os meus compositores favoritos.
Há imensos pianistas que eu admiro e de certeza que me vou esquecer de dizer o nome de alguns. Mas, dos estrangeiros, gosto muito do Evgeny Kissin, da Martha Argerich, do Sokolov, do Daniil Trifonov, do Maurizio Pollini, do Daniel Barenboim, do Lang Lang e da Yuja Wang. Recentemente estive com o Alexander Malofeev que também acho espetacular.
Portugueses também gosto de vários, começando pela maravilhosa Maria João Pires, mas também admiro muito alguns pianistas de gerações mais recentes como o Raúl da Costa ou o nosso conterrâneo Paulo Oliveira.

Como é o teu dia a dia entre a escola e o piano? Quantas horas por dia costumas estudar piano?
O meu dia não é muito complicado porque a escola e o piano estão juntos. Ando no ensino articulado e, normalmente, estou de manhã no Conservatório e de tarde na Escola.
Está tudo bem organizado e não é difícil para mim conciliar as duas coisas.
Costumo estudar piano todos os dias. Acho que isso é fundamental para se evoluir e chegar às aulas de piano com trabalho feito. O número de horas é que já depende do horário que tiver nesse dia, mas, em média, estudo cerca de uma hora por dia durante a semana e no fim de semana, com mais tempo livre, tento estudar um pouco mais.

Para além da música, o que gostas de fazer nos teus tempos livres?
Gosto muito de desporto. Treino crossfit todas as semanas e gosto muito de jogar futebol e basquetebol.
Além disso, gosto de ler, ouvir música e de brincar com os meus amigos, de ir à praia e de andar de bicicleta.
Adoro ir ao estádio ver futebol, de viajar e de receber os amigos em minha casa.

Que conselho darias a outras crianças que gostariam de aprender piano?
Acho que lhes diria que não desistissem e que tocassem todos os dias, nem que seja só um bocadinho. O piano é o instrumento mais completo e, com tempo e alguma paciência, permite fazer coisas incríveis.
Diria também aquilo que o meu professor me diz sempre: mais vale 10 minutos bem estudados, do que horas a fio a tocar mal, e quando estiverem a estudar, toquem sempre devagar!

E quais são os teus sonhos para o futuro?
Tenho muitos. Um dos principais era ter um piano de cauda. Tento juntar as mesadas e o que já ganhei nos concursos e recitais, mas vai demorar a chegar lá porque são mesmo muito caros.
O outro era poder um dia dar um Recital em Vila do Conde, mas também na Casa da Música e, quem sabe um dia, no Carnegie Hall, em Nova Iorque.
Outro grande sonho, era um dia conseguir tocar algumas das minhas peças favoritas, como alguns estudos Liszt, as baladas e os noturnos de Chopin e os 2º e 3º Concertos para Piano de Rachmaninov, que são muito bonitos. Preciso que a mão cresça mais um bocado, mas isso o tempo resolve.


O Jornal de Vila do Conde felicita Guilherme pelo percurso já alcançado e deseja-lhe os maiores sucessos para o futuro, agradecendo também a sua disponibilidade e simpatia para partilhar esta conversa connosco.

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